A Serenidade Inatacável da Inconsciência

Era uma vez alguém que vivia em uma bolha de certeza, um sujeito tão seguro de si que, pela própria definição da sua condição, não conseguia se enxergar de fora. Ele era o protagonista de uma fábula onde a ignorância era, de fato, a felicidade.

Se você, com a sua verdade que parecia cientificamente irrefutável, tentasse apontar a óbvia falha em seu raciocínio, ele não apenas negaria, mas devolveria o julgamento. Em seu universo particular, cretinos eram todos aqueles que o consideravam um cretino.

Ele vivia confortavelmente nesse reflexo invertido, cercado por uma legião de outros que, por razões semelhantes, não o reconheciam pelo que ele era. E, veja só, eles não eram poucos.

E assim, ele trilhou sua jornada, leve e despreocupado. Viver, para ele, era uma brisa suave, sem o peso da dúvida ou o tormento da auto-crítica. Ele ignorava o esforço da busca, a angústia do saber. Não havia noites mal dormidas pensando em como ser melhor, pois ele já se considerava a versão final e perfeita de si mesmo.

Ele viveu feliz e contente como só aqueles absolutamente impermeáveis à realidade podem ser. E partiu sereno, em sua absoluta, perfeita e inatacável inconsciência.

No fim, essa fábula não é sobre a crítica ao personagem, mas um convite irônico à reflexão: Será que a verdadeira sabedoria reside em saber que não se sabe, ou na paz imperturbável de quem sequer suspeita de que algo lhe falta?

Talvez a maior das ironias da vida seja que, enquanto a busca pelo conhecimento nos carrega o peso do mundo, a mais pura das ignorâncias nos garante a mais leve das existências. E há uma beleza poética, ainda que triste, nessa serenidade que não pode ser tocada.

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